Ano novo, blog novo

Mentira.

Comecei o blog em 2014.

De qualquer forma, o Cem Homens não será mais atualizado. Posts antigos serão republicados no

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Beijos e feliz 2015.

 

 

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Não é negligência, imprudência, imperícia. É dolo – parte 1

Estou devastada desde domingo à noite. Como vocês devem ter acompanhado nos noticiários, a jovem Priscila Boliveira despencou de um parapente e faleceu nas areias de São Conrado, no Rio de Janeiro.

As semelhanças com a morte da minha irmã eram assustadoras. Depois que soube do acontecido, tive crise de choro e passei a noite praticamente insone. Ontem, li  tudo o que saiu sobre o acidente (por favor leiam todos os “acidentes” que eu escrever com muitas e muitas aspas), dei entrevistas, cavei telefones, conversei com nosso advogado.

Cheguei ao final do dia exausta. Um bagaço. Fisicamente, por não ter dormido; e emocionalmente, pois remexer nessa história é deveras desgastante. Mas como eu nunca mais quero passar por isso ou ouvir a voz de choro da minha mãe ao saber de um novo acidente, faço questão de escrever esse post. Ele é por mim, sim, mas é muito mais por você e pelos seus amigos e familiares.

Peço que compartilhem, divulguem, repensem. Você pode salvar vidas.

O acidente da minha irmã

Ana sempre quis voar de asa-delta. Como é caro (os voos custam hoje entre R$ 250 e R$ 350), ela nunca havia conseguido ir. Em 2003, já trabalhando, decidiu ir. Recebeu um panfleto na praia, mas eu mesma a aconselhei a procurar a sede da Associação Brasileira de Voo Livre (ABVL), que fica na praia de São Conrado, a poucos metros da área de pouso das asas e parapentes.

Achamos que seria melhor ela procurar a associação para que esta a indicasse um piloto experiente, evitando riscos desnecessários. Foi o que ela fez. Disseram a ela – na ABVL! – que o melhor piloto disponível no momento era Edvaldo Silva, o Valtinho, que tinha muitas horas de voo e prêmios internacionais.

Ela acertou o pagamento para ela, e o amigo que a acompanhava, o Railson, também médico, voaria depois. À época era preciso assinar um termo de responsabilidade (não é o termo de matrícula que existe hoje) e pagar uma taxa dentro da própria ABVL. Se não me falha a memória, o valor era de R$ 5.

Os três (Ana, Railson e Valtinho) subiram para a rampa de decolagem. Notem que tal rampa fica em área federal, pois é dentro do Parque Nacional da Tijuca. Existe uma guarita para que você possa chegar até lá de carro. A área é uma concessão da União (no caso, do IBAMA) e, por isso, atividades ilegais não podem ser realizadas ali (ou em qualquer outro lugar, óbvio, mas essa condição está expressa no termo de concessão).

Ana se preparou para o voo. Como “preparação” entenda aprender a dar uma corridinha. Só. Aqui vocês veem ela poucos minutos antes da decolagem:

Ela estava feliz, satisfeita de realizar um sonho. Era a tarde de uma quarta-feira, 12 de novembro de 2003.

A decolagem de parapentes e asas acontece exatamente no mesmo local. A única diferença é que quem está na asa dá a famosa corridinha nessa parte de madeira aí que aparece na foto, enquanto o parapente decola de uma área imediatamente abaixo desta estrutura.

Ana decolou e tudo parecia correr bem. Até que a asa simplesmente quebrou no ar. Quebrou. Em vez de planar, ela ficou descontrolada e eles bateram em um costão de pedra e caíram no mar. Testemunhas dizem que a quebra aconteceu a 50-70 metros do chão.

Minha irmã chegou a ser resgatada com vida, mas Valtinho morreu imediatamente. Não sei a causa mortis dele, mas a da minha irmã foi a fratura da coluna cervical. Caso tivesse sobrevivido, ela teria ficado tetraplégica.

Railson, o amigo que a acompanhava, estava na rampa na hora do acidente e não viu o que aconteceu. Notou apenas a movimentação estranha, até que o levaram para a praia e ele ficou sabendo de tudo. Assim como os amigos de Priscila, ele teve de ir prestar depoimento na 15ª DP.

O motivo do acidente

A asa estava velha. E não sou eu quem está falando isso. Eu nunca nem vi a asa sem ser por essas fotos. Pentelha que sou, fui até a 15ª DP, enchi o saco do policial e ele chamou algumas pessoas para depor. Uma delas foi a presidente da AVLRJ na época do acidente, que coincidentemente também se chama Ana.

Ela disse que a asa que Valtinho usava estava CONDENADA pelos próprios pilotos. Estava muito velha, sem condições de uso. Mas mesmo assim ele subiu para a rampa, tirou a asa do “aseiro” (um depósito fechado que fica sob responsabilidade das associações) e voou.

Por favor notem que existe – ou deveria existir – um fiscal de rampa. E que sempre há outros pilotos lá em cima. Eles podiam ter impedido o voo, mas não fizeram.

Boatos dizem que a asa estava remendada com silver tape. SILVER TAPE.

Não foi feita perícia no equipamento. Ela caiu no mar, junto com a minha irmã e o piloto, e afundou. Dias mais tarde o corpo de bombeiros a retirou de lá, e entregou à ABVL. A própria associação fez a “perícia” (quão louco isso é???) e chegou à conclusão que não tinham conclusão.

Anotaram que a asa estava quebrada em algumas partes, mas não sabiam precisar qual parte quebrou no ar e qual se partiu no choque contra a pedra. Não há uma única palavra sobre as condições do equipamento, se estava velho, se alguma parte estava corroída, nada.

Quando perguntados em juízo o que haviam feito com a asa, eles disseram que jogaram fora. JOGARAM FORA. 

Como eu fiquei sabendo

Tudo isso aconteceu, o mundo ficou sabendo (porque saiu em jornais, plantões e sites), mas eu estava alheia a tudo. Saí do trabalho e fui para a aula de espanhol, deixando meu celular no silencioso durante esse tempo. Passava um pouco das nove da noite quando cheguei em casa e notei as dezenas de chamadas perdidas no telefone. Não vou passar detalhes desse momento, porque foi extremamente dramático e muitos de vocês já sabem.

O fato é que em poucos minutos a minha casa estava cheia de amigos (queridos, os agradeço imensamente por isso). Dois deles estavam no IML, minha prima e um ex-namorado. Só que o corpo da minha irmã não estava lá, mesmo horas após o acidente.

Flávia e Roberto, duas almas gêmeas que tive o prazer de encontrar nessa vida, foram até o Grupamento Marítimo dos Bombeiros, na Barra, e descobriram que a Ana (desculpem, não consigo chamá-la de “corpo” ou “cadáver”) estava lá. Numa maca. Há horas. Eles acompanharam o carro dos bombeiros que a transportou para o IML, onde chegou apenas no início da madrugada.

A atitude das associações após o óbito e o traslado do corpo

Quando Flá e Beto chegaram ao IML e encontraram minha prima, Adriana, e o Cristiano, o ex-namorado, o local estava lotado de pilotos de voo livre. Todos prestando solidariedade à família do Valtinho, cujo corpo tinha ido direto para lá após o acidente. Eles estavam tentando liberar o cadáver para sepultamento.

Em conversas informais, os diretores da ABVL e da AVLRJ (hoje chamada de Clube de Voo Livre de São Conrado) disseram que dariam todo o apoio para ajudar-nos na burocracia decorrente da morte da minha irmã. Entregaram cartões, números de telefone, foram simpáticos e aparentemente prestativos. Disseram, também, que existia um seguro que cobria casos como aquele.

Só que o corpo da Ana não poderia ser analisado naquele momento, pois já era madrugada e não havia nenhum médico de plantão. Teríamos, então, que esperar a manhã seguinte.

Foi o que fizemos. No horário da abertura do IML já estávamos lá (eu, em completo choque). Além da demora habitual de qualquer órgão público, a impressão digital da Ana estava muito fraca na carteirinha do Conselho Regional de Medicina (CRM), o único documento que ela havia levado para o Rio.

Enquanto tentávamos liberar o corpo apesar deste inconveniente, tive de lidar com repórteres-urubus. Passamos horas naquele lugar fétido (o IML é o lugar mais fedido do mundo). Nesse meio tempo tivemos que começar a organizar o traslado do corpo para Manaus, onde Ana seria enterrada.

Antes de embarcá-la no avião, porém, seria necessário embalsamá-la. Creio que isso aconteça por questões de segurança, para que o avião não seja infectado com alguma doença que o morto porventura tivesse. Isso também conserva o corpo por muito mais tempo.

Foi quando alguns amigos tentaram contato com o pessoal da ABVL e da AVLRJ. Como poucos voos faziam esse traslado à época, precisávamos liberar o corpo imediatamente, para que desse tempo de irmos para Manaus no mesmo dia.

Todos os telefones indicados estavam desligados ou fora de área. Deixaram recado nas associações. Ninguém jamais retornou ou nos deu qualquer auxílio na liberação e traslado do corpo.

Com auxílio inestimável da minha amiga Christianne, encontramos uma funerária que fez todo o serviço de embalsamar e transportar para o aeroporto. Porém, só conseguimos embarcar – eu, Ana, Railson e meu cachorro – na sexta-feira pela manhã (o acidente havia sido na quarta-feira).

Aqui eu preciso fazer um mimimi, já que não fiz até agora. Ao chegar em Manaus meu pai me esperava dentro da sala de desembarque. Todo mundo na cidade já sabia do que havia acontecido e deixaram que ele ficasse lá dentro.

Perguntei pela minha mãe e ele disse “está lá no Terminal de Cargas”. Pedi para ele pegar meu cachorro e saí correndo pelo aeroporto. Minha tia Magnólia me levou até o outro terminal, onde encontrei minha mãe e meu irmão. Estávamos completamente destruídos. Vocês não têm a menor ideia do que é receber o caixão da própria irmã num terminal de cargas.

Voltando.

Levamos à funerária, velamos, enterramos. E aí começa uma nova saga na minha vida, que escreverei em outro post porque este já está longo demais.

 

 

Voo duplo é proibido!

Hoje não vai ter live porque estou devastada. Completamente arrasada. Uma moça morreu num acidente de parapente no Rio de Janeiro. (leia aqui e aqui)

Sempre mando e-mails para meus amigos quando acontece algo do tipo. Resgatei um aqui de 2008, e compartilho com vocês. Gostaria de atualizar a informação de que meus pais já ganharam em SEGUNDA INSTÂNCIA também.

Texto enviado aos meus amigos no dia 11 de dezembro de 2008.

Ontem aconteceu mais um “acidente” de asa-delta no Rio de Janeiro.
Ironicamente, numa quarta-feira, tal qual aquele 12 de novembro 2003,
quando minha irmã, a médica Ana Rosa Lapa dos Santos, faleceu em um
acidente muito parecido. Na ocasião, também morreu o piloto da asa,
Edvaldo da Silva, conhecido como “Valtinho”.

O que muita gente não sabe é que o vôo duplo com fins comerciais é proibido
pela legislação aeronáutica brasileira. Vôos duplos são permitidos, sim,
mas apenas como processo de instrução. Em tese, os passageiros são alunos
de cursos de pilotagem.

Os pilotos, associações e clubes burlam a legislação (isto é, contrariam a
lei!), ao fingir que os vôos turísticos são instrucionais. Por esta razão é
que sempre se referem ao piloto como “instrutor”. Convenhamos: ele não está
ensinando nada. É um passeio recreativo, turístico, e extremamente
vantajoso.

O Sr. Roberto Menescal, presidente da Associação Brasileira de Vôo-Livre
(ABVL) à época do acidente da minha irmã, afirmou EM JUÍZO que todos os
passageiros de vôo duplo são pessoas interessadas em pilotar uma asa-delta.
Qualquer morador do Rio de Janeiro sabe quão falsa é esta afirmação.

Há alguns anos um vôo duplo custava a bagatela de 200 reais. Façamos as
contas: se um piloto fizesse um único vôo ao dia, de segunda a sexta, ele
ganharia 1.000 reais por semana, ou 4.000 reais mensais. Sem incidência de
qualquer imposto de renda, INSS, PIS, Cofins, ou coisa que o valha. Quatro
mil. Limpos. Lembro que um vôo dura cerca de 15 minutos e ainda tem mais o
tempo de subir até a pedra, montar a asa e depois desmontá-la. Digamos que
eles levem 1 hora pra fazer isso tudo. Está de bom tamanho, não está?

Desconheço os valores que são praticados atualmente, mas desconfiava que as
normas de segurança não estavam sendo seguidas. O acidente de ontem só me
deu a certeza de que tudo continua como dantes no quartel de Abrantes, o
que é muito triste e frustrante. Afinal, a morte de duas pessoas (só uma me
dói – imensamente, aliás – mas não podemos esquecer do piloto) foi
absolutamente em vão.

A ANAC continua fazendo vista grossa, a prefeitura do Rio finge que não é
com ela, as agências de turismo continuam vendendo o “passeio” e os pilotos
e associações continuam enchendo os bolsos de dinheiro. Enquanto isso,
neste exato momento há pelo menos uma família com um parente internado na
UTI (as informações são vagas e desencontradas; uns dizem que o piloto é
que se machucou muito, outros dizem que foi o turista canadense).

Por favor notem que não há seguro indenizatório para caso de acidentes; que
o passageiro NÃO é equipado com pára-quedas; e que a atividade não é
regulamentada justamente por ser ILEGAL. E ainda acontece em área federal
(isto é: minha, sua, nossa!): a área da rampa pertence ao IBAMA.

Não ficamos de braços cruzados e entramos com ação judicial indenizatória.
A sentença da primeira instância nos foi favorável, estabelecendo reparação
pecuniária. O processo continua transitando. Nada nos trará a Ana de volta,
mas serve de alerta para que novos acidentes sejam evitados.

É muito doloroso remexer nestes fatos, especialmente por sabermos que nada
mudou. Mas é nosso dever, enquanto cidadãos, tentar mudar a história do
nosso país. É o que estamos (eu e minha família) fazendo.

O turista canadense é o ator Michel Cardin, que havia casado poucos dias antes com uma brasileira, a Carol. Ele está em estado vegetativo até hoje. Alguns meses mais tarde outra moça teve um “acidente” parecido, a Diandria. Felizmente Diandria sobreviveu, mas o piloto que estava com ela, conhecido como Parafina, morreu.

Michel Cardin

Acidente? Tem certeza?

Quero primeiro avisar que este post não tem a ver com sexo, nem com depressão, nem com corações partidos. É um assunto sério, seríssimo, e peço – mesmo – que vocês divulguem. Pensem a respeito. Repassem para os amigos. Por favor. 

Nesta semana aconteceram três “acidentes” fatais no turismo que foram divulgados pela mídia.

O primeiro foi o chocante atropelamento da garotinha de três anos em Bertioga. Por um jet ski.

Depois, Maiza Tavares morreu em Água de Lindoia quando o cabo da tirolesa se rompeu.

Hoje uma adolescente de 14 anos morreu no Hopi Hari.

Pessoas totalmente diferentes, em lugares diferentes, com causa mortis diferentes. Será? Será que foram meros acidentes?

Eu respondo, utilizando um recurso que se um ex-chefe meu soubesse, me mataria: o dicionário (muitos jornalistas têm mania de usar isso, e esse meu ex-chefe tinha horror à prática).

acidente
a.ci.den.te
sm (lat accidente) 1 O que é casual, fortuito, imprevisto.

Vamos ver isso caso a caso. Criança em Bertioga foi atropelada por um jet ski pilotado por um garoto de 14 anos. Somente maiores de idade podem pilotar e precisam ser habilitados para isso (leia mais a respeito no post do Sakamoto que eu indico na própria notícia). Acidente?

Tirolesa: como ainda não há muitas informações a respeito, eu digo que uma tirolesa não é somente pendurar uma corda de um lugar mais alto e amarrá-la no chão, para que a pessoa, ao escorregar, caia em uma linda poça d’água. Não. A Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) tem regras bem específicas sobre altura, peso suportado, manutenção, monitoramento (há que existir, por exemplo, uma pessoa habilitada no local da partida e outra no local da chegada). As regras seguem aquelas fórmulas físicas mesmo. É cedo para dizer que o sítio onde Maiza morreu não seguia essas regras? Talvez. Mas um cabo de aço não se rompe do nada.

Vamos então ao Hopi Hari. A adolescente pagou um ingresso e achou que ali dentro estava segura. Eu usei aquele mesmo brinquedo mil vezes. Adorava. ADORAVA. Até que em 2007 eu fui ao parque e me assustei com o abandono. Pintura descascando, falta de monitor em alguns brinquedos… Cheguei até a mandar um e-mail pra lá. Disse que se eles não se preocupavam assim com a aparência, qual preocupação eles teriam com a segurança? Não tenho mais o texto guardado, pois o contato foi pela caixinha de mensagem no próprio site do Hopi Hari. Tenho apenas a prova do recebimento, numa mensagem automática de 19 de outubro de 2007.

Alguns dias mais tarde me ligaram do parque. Com muita educação, me explicaram que o Hopi Hari estava passando por mudanças significativas e que em breve estaria tudo ok. Eu agradeci o contato, falei que nunca mais colocaria meus pés lá mas que confiava na palavra da simpática moça. “Não quero que aconteça um acidente por aí”, disse.

Agora vocês devem estar se perguntando a razão pela qual eu escrevo tudo isso aqui ou resmunguei tanto no Twitter nesse começo de tarde. Algumas pessoas, logo no início desse blog, me xingaram dizendo que eu devia me preocupar com coisas “mais importantes”, me “engajar em causas relevantes” e toda essa bobagem (como se falar sobre sexo fosse inútil).

Pois bem. Há nove anos eu sou engajada, sim, numa causa que me é muito, muito cara: a da segurança em turismo/esportes de aventura. Façam suas contas aí, sejam espertos e descubram do que eu estou falando.

Há quase uma década eu luto incansavelmente para que as regras de segurança sejam respeitadas. Por isso que eu mandei o e-mail para o Hopi Hari. Não sou o tipo de pessoa que faz cara feia nem pro garçom, imagina se eu ia me incomodar em escrever uma mensagem enorme pra um parque de diversões. Fiz porque achei que era meu dever como cidadã. Como uma pessoa que já sentiu na pele o que é ver um ente querido virar estatística. Mera estatística.

Porque é exatamente isso que acontece: rapidamente o Hopi Hari vai dizer que X pessoas foram ao parque nesses anos de atividades, mas que somente X/1000000000000 sofreram algum tipo de machucado. A adolescente de 14 anos vai virar um número. Sem nome. Sem rosto. Sem sonhos. Um número.

Mas por trás dela há uma família. Uma família que hoje vai liberar um corpo no IML, vai lutar na justiça por uma indenização e vai ouvir de um burocrata qualquer exatamente que foi “uma fatalidade”. Não. Num “brinquedo” como aquele, a manutenção é essencial. É preciso registrar as horas de uso de cada peça; conferir o funcionamento antes do parque abrir. Tudo isso está numa lista de regras assinada pelos donos dos principais parques de diversões do país. Regras essas que, aliás, não têm força de lei.

Resumindo, é isso: essas regras são feitas pelas próprias pessoas que exploram as atividades. No caso da ABNT, as normas parecem ter respaldo técnico e demoraram anos para serem concluídas. Mas quem fiscaliza? Você não é obrigado a obedecer, se não quiser.

Sabem aqueles passeios de bugue nas dunas do nordeste? Que o motorista – muitas vezes não habilitado – te pergunta se você quer com ou sem emoção? Pois é. Você vê as fotos da galera super animada sentada na parte externa do bugue e segurando naquele negócio cujo nome desconheço (aquela barra entre os bancos traseiros e dianteiros). Todo mundo de biquini e sunga, feliz e bronzeado. A regra diz que as pessoas devem estar DENTRO do carro e com cinto de segurança. Para todos. Alguém segue isso?

Há casos ainda piores, em que a própria atividade é proibida. PROIBIDA. É o caso do voo duplo. É, aquele mesmo que você vê na TV, com os globais dizendo que foi a experiência da vida deles. A Agência Nacional de Aviação Civil diz que tais voos só podem ser feitos com fins instrucionais. Por causa disso é que os pilotos se autointitulam “instrutores” e dizem que você está pagando uma “matrícula”, quando na verdade você está só de férias no Rio e nunca mais vai se pendurar numa asa delta ou num parapente.

Porque eles BURLAM a lei. Eles fingem que estão “dando aula”, mas na verdade estão fazendo um voo panorâmico. Eles cometem uma ilicitude. E ganham MUITO dinheiro com isso. MUITO. E, agora sim eu posso dizer de cadeira: não fiscalizam, não treinam os pilotos e usam asas e parapentes desgastados, velhos e que QUEBRAM NO AR.

Se algo acontecer com você em alguma dessas atividades, você vai virar uma Maiza, ou a adolescente de 14 anos, ou ainda a garotinha de três. A notícia vai chocar alguns. Outros nem vão ficar sabendo. Quem explora a atividade vai te transformar em estatística. Mas seus pais, irmãos, amigos, namorados ficarão eternamente com uma sensação de impotência e revolta. Pra eles você tem nome, sobrenome, sonhos, planos de futuro.

Vejam a matéria de Denise Odorissi, do R7, sobre os casos da semana com a querida Silvia Basile, uma pessoa séria e que luta  há anos pela causa. 

Por tudo isso, eu dedico esse post e essa música a você, my dear. I love you loads and loads.